Roteiro: Sérgio Machado, baseado em livro de Jorge Amado
Elenco: Paulo José, Mariana Ximenes, Marieta Severo, Vladimir Brichta
Trinta e cinco anos após o estrondoso sucesso de Dona Flor e Seus Dois Maridos, chega aos cinemas mais uma adaptação de Jorge Amado: Quincas Berro D'Água. O longa, dirigido por Sérgio Machado (Cidade Baixa), reside em uma humorada adaptação do livro A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, importante título da literatura brasileira que conta a história de um boêmio que morre no dia de seu aniversário de setenta e dois anos e, durante seu velório, seus amigos pegam seu corpo para farrear pela última vez nas ruas de Salvador. A morte em Quincas..., o evento que faz a história acontecer, é tratada de forma leve e natural, encarando a comicidade e o luto lado a lado, sem tempo para chororô. Os amigos de Quincas, interpretados por atores afiadíssimos, não têm a menor cerimônia ao lidar com o corpo do finado amigo. Brincam, acendem cigarro na vela do caixão e dão cachaça, para, por fim, levarem-no para um último passeio, para a ira da família do defunto.
Ambientado na Bahia da década de 50, o filme é construído a partir da narração em off de Quincas, que já está morto, e dos flashbacks que aparecem a partir das memórias dos amigos e familiares do personagem principal e vão se alternando com o tempo presente. Essa maneira de narrar a história – voz em off e flashbacks - dá força ao filme e nos passa a impressão de Quincas estar sempre presente, não apenas sendo um corpo morto, assim gerando uma simpatia para com o personagem.
Por trás de toda a história do filme, pode-se notar o conflito de classes (“classe média” e o “povo”) ao mostrar a vida – a partir da morte – de Quincas, ex-funcionário público que abandona a medíocre vida burguesa para viver com uma classe mais espontânea, no meio de bêbados e prostitutas, beber e se divertir. O longa gira ainda em torno da vergonha que a família de Quincas tem de abalar seu status social caso as pessoas descubram que o chefe da família havia abandonado seu lar para viver de maneira simplória, com uma classe mais baixa, pelas ladeiras de Salvador e suprindo um amor por uma dona de bordel. Sua ex-mulher é uma mulher chata, amarga; sua filha, uma pessoa pedante, mesquinha – que mais tarde se mostrará de outra forma, livre de toda hipocrisia -; e seu genro, um burocrata arrogante – que também se revelará mais tarde sem todo esse fingimento com o qual a classe é retratada ao dormir com um travesti. Vemos a evolução da personagem vivida por Mariana Ximenes a partir da identificação com esse novo modo de vida que seu pai adotara e o afastamento de suas raízes burguesas até tornar-se uma mulher voluptuosa.
A partir desse contato com o mundo do pai, não só a personalidade mudou, mas também sua forma de ver o mundo. Ela vai em um terreiro, conversa com uma mãe de santo e se abre a um novo caminho. Enquanto a burguesia se concentrava no moralismo cristão/católico, as pessoas mais pobres – claramente, representada por um grande número de negros-, viviam um maior sincretismo religioso e tinham uma maior ligação com as religiões afrobrasileiras. É, de maneira resumida, a procura pelo o que lhe convém e quando lhe convém, e é uma coisa bastante comum na cultura brasileira. Precisa de um padre vai na igreja; Precisa de uma mãe de santo, vai no terreiro.
Texto escrito por nosso amigo Sérgio Júnior, estudante de cinema da UFF
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