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domingo, 11 de julho de 2010

Quincas Berro d'água, 2010

Diretor: Sergio Machado
Roteiro: Sérgio Machado, baseado em livro de Jorge Amado
Elenco: Paulo José,
Mariana Ximenes, Marieta Severo, Vladimir Brichta

Trinta e cinco anos após o estrondoso sucesso de Dona Flor e Seus Dois Maridos, chega aos cinemas mais uma adaptação de Jorge Amado: Quincas Berro D'Água. O longa, dirigido por Sérgio Machado (Cidade Baixa), reside em uma humorada adaptação do livro A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, importante título da literatura brasileira que conta a história de um boêmio que morre no dia de seu aniversário de setenta e dois anos e, durante seu velório, seus amigos pegam seu corpo para farrear pela última vez nas ruas de Salvador. A morte em Quincas..., o evento que faz a história acontecer, é tratada de forma leve e natural, encarando a comicidade e o luto lado a lado, sem tempo para chororô. Os amigos de Quincas, interpretados por atores afiadíssimos, não têm a menor cerimônia ao lidar com o corpo do finado amigo. Brincam, acendem cigarro na vela do caixão e dão cachaça, para, por fim, levarem-no para um último passeio, para a ira da família do defunto.

Ambientado na Bahia da década de 50, o filme é construído a partir da narração em off de Quincas, que já está morto, e dos flashbacks que aparecem a partir das memórias dos amigos e familiares do personagem principal e vão se alternando com o tempo presente. Essa maneira de narrar a história – voz em off e flashbacks - dá força ao filme e nos passa a impressão de Quincas estar sempre presente, não apenas sendo um corpo morto, assim gerando uma simpatia para com o personagem.



Por trás de toda a história do filme, pode-se notar o conflito de classes (“classe média” e o “povo”) ao mostrar a vida – a partir da morte – de Quincas, ex-funcionário público que abandona a medíocre vida burguesa para viver com uma classe mais espontânea, no meio de bêbados e prostitutas, beber e se divertir. O longa gira ainda em torno da vergonha que a família de Quincas tem de abalar seu status social caso as pessoas descubram que o chefe da família havia abandonado seu lar para viver de maneira simplória, com uma classe mais baixa, pelas ladeiras de Salvador e suprindo um amor por uma dona de bordel. Sua ex-mulher é uma mulher chata, amarga; sua filha, uma pessoa pedante, mesquinha – que mais tarde se mostrará de outra forma, livre de toda hipocrisia -; e seu genro, um burocrata arrogante – que também se revelará mais tarde sem todo esse fingimento com o qual a classe é retratada ao dormir com um travesti. Vemos a evolução da personagem vivida por Mariana Ximenes a partir da identificação com esse novo modo de vida que seu pai adotara e o afastamento de suas raízes burguesas até tornar-se uma mulher voluptuosa.

A partir desse contato com o mundo do pai, não só a personalidade mudou, mas também sua forma de ver o mundo. Ela vai em um terreiro, conversa com uma mãe de santo e se abre a um novo caminho. Enquanto a burguesia se concentrava no moralismo cristão/católico, as pessoas mais pobres – claramente, representada por um grande número de negros-, viviam um maior sincretismo religioso e tinham uma maior ligação com as religiões afrobrasileiras. É, de maneira resumida, a procura pelo o que lhe convém e quando lhe convém, e é uma coisa bastante comum na cultura brasileira. Precisa de um padre vai na igreja; Precisa de uma mãe de santo, vai no terreiro.



Longe da qualidade e do sucesso do filme de Bruno Barreto, que levou doze milhões de brasileiros ao cinema, Quincas... tem o seu valor. O filme retrata a Bahia de Jorge Amado de maneira bonita e interessante, sem usar uma fotografia carnavalesca e conta com bons atores, como Paulo José e sua originalíssima narração em off, Marieta Severo e Luís Miranda; além de boas interpretações do resto do elenco, bons efeitos e criatividade. Por mais que em alguns momentos o humor apele para um lado bobo, óbvio e pouco inteligente, é um bom filme de caráter assumidamente popular e pode ser considerado acima da média do que o Brasil tem costumado fazer ultimamente quando se trata de um filme comercial, ainda que não tenha conseguido ir muito longe atingindo apenas pouco mais de duzentos mil espectadores. A trilha de Quincas..., composta por Beto Villares, é boa e conta com um leimotif bastante significativo. Provavelmente, daqui a três décadas, o filme será apenas mais um lançado nessa nova década que começa, não terá uma Dona Flor ou um Vadinho que serão lembrados eternamente no cinema brasileiro, mas digamos que, hoje, ele tenha seu valor.


Texto escrito por nosso amigo Sérgio Júnior, estudante de cinema da UFF

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